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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Seu corpo não é uma fruta

Não é novidade pra ninguém que várias revistas e sites de moda passam publicando artigos sobre o quão importante é saber qual é a forma do seu corpo e como disfarçar as partes "defeituosas" dele com os do's e don'ts de como se vestir. Esses artigos normalmente são acompanhados de um guia ilustrado que compara a forma do corpo das mulheres com frutas, objetos e formas geométricas.

Porém, o que é dito como um "guia de como se vestir bem", geralmente serve para reforçar a noção de que algumas formas são mais desejáveis do que outras, e este tipo de objetificação tende a aumentar a vergonha pelo próprio corpo, estimulando transtornos depressivos e distúrbios alimentares.

Se você não sabe, o assunto é mais ou menos esse: Se você tem ombros largos e quadris estreitos a sua silhueta é uma maçã. Se você tem quadris largos e é pequena no busto e nos ombros você é uma pêra. E se você tiver cintura fina e bustos e quadris generosos, então você tem a cobiçada silhueta ampulheta! Mas se você não tiver tanta sorte, você não chega nem a ser uma fruta ou mesmo um dispositivo de medição do tempo, você pode ser simplesmente um círculo ou um retângulo. Isso não é sensacional?


Objetificação à parte, há outra questão: e se você não se encaixa em nenhuma dessas categorias? Não sei você, mas esses guias nunca me ajudaram, afinal eu nunca me identifiquei totalmente com nenhuma delas. Eu poderia ser uma pera, afinal eu tenho pouco busto, cintura fina e quadris um pouco largos. Mas aí os meus ombros também são largos, então eu poderia ser uma ampulheta? Mas ainda assim, como eu sou pequena, como um todo eu não pareço tão curvilínea assim, então eu poderia ser um retângulo?

Todos os seres humanos são tão diferentes, de tantas maneiras, com tantas particularidades, que a gente já deveria saber que não podemos ser classificados. Pode ser divertido quando se trata de astrologia, por exemplo, mas essas coisas são definidas pelo dia em que você nasceu, e não pela sua aparência.

E quando você se encaixa em uma dessas classificações, será que realmente vale a pena se olhar no espelho e pensar "bem, meu corpo tem a forma de uma banana então eu tenho que usar um cinto para dar a ilusão de que eu não me pareço do jeito que eu realmente sou"? Eu acho que não. É verdade, alguns dias é difícil se vestir, e quando a gente tem certas partes do corpo que gostaria de minimizar e outras que gostaria de destacar, é bom saber quais são elas, né? Só que geralmente a gente já sabe, afinal a gente vive nesse corpo o tempo todo e o conhece infinitamente melhor do que esses guias estereotipados de "qual é o seu tipo de corpo e como o vestir"!

A minha opinião é a de que gente tem que vestir o que nos faz sentir bem! E se usar um cinto para dar mais cintura te faz sentir bem e feminina, isso é ótimo! Só que se você não gosta de determinada peça que dizem que você deve vestir porque emagrece, alonga etc, não se sinta obrigada! Esses guias não podem se tornar regras e limitar nossas escolhas de vestirNosso corpo não é uma fruta e nós somos livres pra vestir o que diabos a gente quiser.

domingo, 8 de março de 2015

O empoderamento feminino através da moda

Ser feminista no século 21 pode vir com várias contradições. Eu sou feminista, mas amo (e trabalho com) a moda, uma indústria que pode ser bastante opressiva para as mulheres, principalmente por conta da aparência intangível de que ela muitas vezes se apropria. Muitas meninas e mulheres olham para anúncios de marcas como Victoria's Secret e têm vergonha por não se encaixar em um padrão de beleza inatingível para a maioria delas. Seja por causa dos estereótipos criados pela mídia, ou pelas mudanças cada vez mais rápidas, a moda também é muito vista como superficial e até desnecessária.

De fato, na sua essência, pode-se dizer que a moda é uma indústria baseada no consumismo e em um nível de insegurança que pode fazer as pessoas se sentirem inadequadas e desaprovadas por não terem o corpo da Gisele ou um vestido da Versace.

Mas a moda é também uma das poucas formas de expressão em que as mulheres têm mais liberdade do que os homens [Greta Christina], e se nós, mulheres, ignorarmos a moda, estaremos cedendo o nosso poder de influenciá-la. Em 1851, a defensora dos direitos das mulheres Amelia Bloomer popularizou a saia bifurcada (uma espécie de calça), que dispensava o uso da crinolina. No século seguinte, Coco Chanel democratizou a calça feminina, libertando as mulheres de regras de vestimenta que não eram nada práticas.


A moda, inclusive, já foi usada também para fins políticos. As sufragistas, no fim do século 19, por exemplo, usaram joias com pedras nas cores verde, branco e violeta, que em inglês, -green, white, violet- formam a sigla GWV (Give Women Votes) que expressava a luta das mulheres pelo voto.

Depois da tentativa de independência feminina na década de 1920, que foi sufocada pela guerra, em 1960 finalmente veio a moda democrática, a libertação feminina e a revolução sexual. A criação da minissaia por Mary Quant e o smoking feminino por Yves Saint Laurent são apenas dois exemplos da história refletida na moda.

Nos últimos anos o feminismo vem se firmando cada vez mais e desmistificando comportamentos radicais do passado. Várias pessoas públicas, como Beyoncé e Lena Dunham, já fizeram declarações de empoderamento feminino, e a moda está mais permissiva do que nunca.

A mulher pode vestir o que diabos ela quiser!

Quando eu era criança logo fui ensinada que meninas não deveriam sentar com as pernas abertas, deveriam usar cor-de-rosa, se comportar como mocinhas, serem delicadas e femininas etc. Entrando na adolescência a situação parece ser mais intensa... "Tu não acha essa tua blusa/saia/short/vestido muito curto, não?" Mostrar a barriga e as pernas (!) se torna algo inadequado e eu lembro que quando meus seios começaram a crescer tentei escondê-los ainda mais porque eu achava que deixar parecer que eu estava me tornando uma mulher era ainda mais inapropriado.

Então há alguns anos, quando eu comecei a formar meus pontos de vista, principalmente contra o patriarquismo e pró a igualdade de gênero, eu percebi que falar para as mulheres como elas devem se vestir era parte de toda uma equação de poder, onde o gênero feminino estava sempre em uma posição inferior.

A mulher pode vestir o que diabos ela quiser, independente do que os homens, outras mulheres ou as tendências dizem. A moda desempenha um papel importantíssimo no empoderamento das mulheres, uma vez que perceber o que fica bem em cada indivíduo exige uma compreensão profunda de sua personalidade, incentivando a mulher a ganhar mais conhecimento sobre si mesma e, assim, aumentar a sua auto-estima vestindo o que a faz feliz.

Esse é o melhor momento para usar a moda pra expressar individualidade e estilo pessoal, e nunca se deixar ser usada por ela.